Diversidade étnica nas empresas: a inclusão de indígenas no mercado de trabalho ainda é um desafio

Confira porque a inserção dos povos indígenas no mercado de trabalho ainda é baixa e soma barreiras que dificultam a evolução desses profissionais.

Como está a inclusão de indígenas no mercado de trabalho

Quando foi a última vez que sua empresa pensou, de verdade, na inclusão de povos indígenas no mercado de trabalho?

O Dia dos Povos Indígenas, no dia 19 de abril, reforça a importância de falar sobre empregabilidade e outros direitos. Afinal, dados mostram que esse tema ainda precisa ganhar espaço dentro das empresas brasileiras.

O que dizem os dados sobre indígenas no mercado de trabalho?

O Brasil tem 305 povos indígenas, com diferentes culturas, línguas e histórias. Mas, quando a gente olha pro mercado de trabalho formal, esse cenário de diversidade desaparece.

Dados de indígenas no mercado de trabalho.

Além disso, não foram identificadas mulheres indígenas nos conselhos das grandes empresas, e sua presença em cargos executivos é praticamente inexistente, segundo o  Instituto Ethos.

Ou seja, pessoas indígenas não atingem 1% em nenhuma das categorias de emprego analisadas no levantamento, incluindo entrada, quadros técnicos, coordenação, gerência e alta liderança.

E não é falta de população: segundo o censo mais recente, 0,83% dos brasileiros se declaram indígenas — cerca de 1.693.535 pessoas. Isso indica que, quando falamos sobre oportunidades reais de trabalho, o problema é a invisibilidade desse grupo.

Por que isso ainda acontece?

A dificuldade de inserção dos povos indígenas no mercado de trabalho é uma soma de barreiras que começa muito antes da porta de entrada da empresa.

Um exemplo disso é o depoimento dado por Robson Baré, jornalista indígena formado pela UFPR, que em entrevista à Agência Pública, explica que ainda precisa lidar com quem fica surpreso por ele ter se graduado em uma das maiores universidades do país. 

O jornalista também comentou sobre o preconceito em relação aos profissionais indígenas no mercado de trabalho.

“Ainda convivemos com estigmas sobre a nossa competência profissional e os nossos saberes em relação a pessoas não-indígenas. Precisamos nos reafirmar e nos provar o tempo todo.” Robson Baré

Além disso, o caminho até o mercado formal é cheio de obstáculos, como: dificuldade de acesso ao ensino superior, distâncias geográficas, choque cultural e linguístico, falta de representatividade e renda insuficiente para manter os estudos. 

Quando a pandemia chegou, por exemplo, esse grupo esteve entre os mais atingidos economicamente — com queda de 28,6% na renda, segundo estudo da FGV Social.

Essa realidade impacta diferentes setores e se manifesta de forma concreta nas trajetórias profissionais e nas oportunidades oferecidas no dia a dia. 

Para entender como essas barreiras aparecem na prática, ouvimos quem vivencia esse cenário. A artesã e propagadora da cultura indígena Wydiane Kariri Xocó, de Alagoas, comentou que tudo começa na área da educação, que reforça estereótipos sem a real valorização dos povos originários.

“A gente sabe que ainda existe o preconceito. Eu mesma estou fazendo um trabalho em São Paulo e vejo que na própria área da educação eles não estão valorizando a verdadeira história do Brasil. Até para trabalho em escolas, eles não contratam mais o índio, que é nativo, pra passar seu conhecimento e apresentar a cultura. Preferem pegar alguém com fantasia e dois traços no rosto para simbolizar o Dia dos Povos Indígenas.”

Ela reforça que muitos indígenas têm medo de se posicionar, mas ela se mantém ativa, transmitindo sua realidade: “trabalho em escolas e dou depoimento entendendo que a luta de um é a luta de todos. Por isso dou minha opinião na esperança de que não apaguem nossa história.”

E quando esses profissionais conseguem ingressar no mercado? 

O problema continua. Sônia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas, em evento promovido pela FUNAI explicou que a inserção dos povos indígenas no mercado de trabalho formal ainda enfrenta barreiras históricas, como o preconceito em relação aos seus saberes tradicionais e à falta de políticas que respeitem suas especificidades culturais.

“Talvez seja essa divergência na percepção do conhecimento tradicional entre nós e a sociedade não indígena que favorece a apropriação indevida de nossos saberes tradicionais. Por isso, é crucial debater a utilização desses conhecimentos, assegurando que, em benefício nacional ou global, os principais contemplados sejam os povos indígenas e as comunidades tradicionais detentoras desses conhecimentos.”

Ela reforçou que é necessário adotar um conjunto de ações que vão além da contratação, sendo essencial garantir ascensão e pertencimento, combatendo a invisibilidade nos espaços de decisão.

Além disso, segundo o Instituto Ethos, as políticas de inclusão ainda se concentram na entrada de profissionais nas empresas, mas avançam pouco na ascensão para cargos de liderança.

Contratar é apenas o começo, e esse processo pode ser fortalecido com algumas ações práticas e consistentes, como:

1. Revise o processo seletivo: descrições de vagas com linguagem excludente, processos que ignoram trajetórias não-lineares e canais de recrutamento que não chegam até comunidades indígenas são barreiras invisíveis — mas muito reais. Ampliar os canais e eliminar vieses inconscientes é essencial.

2. Considere vagas afirmativas: postos destinados a grupos que enfrentam mais barreiras de acesso ajudam a corrigir um desequilíbrio que o mercado sozinho não resolve. É uma ferramenta importante quando acompanhada de uma cultura de acolhimento.

3. Invista em pertencimento, não só em contratação: treinamentos de sensibilização cultural, grupos de afinidade e programas de mentoria fazem a diferença entre “entrar” e “ficar”. Sem esse suporte, as taxas de turnover tendem a ser altas.

4. Inclua o recorte indígena nos dados de D&I: muitas empresas ainda não coletam esse dado. Sem medir, não tem como evoluir. O que não aparece nas métricas, tende a não aparecer nas decisões.

5. Respeite as especificidades culturais: isso vai desde o respeito a calendários e datas importantes até a abertura para formas diferentes de se comunicar, liderar e colaborar. Incluir não significa padronizar.

Diversidade faz bem para o negócio também

Os números da Pesquisa do Instituto Identidades do Brasil mostram que o aumento de 10% na diversidade étnico-racial de uma empresa pode resultar em até 4% de ganho de produtividade. 

Equipes diversas tomam decisões melhores, inovam mais e enxergam problemas de ângulos diferentes. Além disso, empresas com agenda ESG consistente precisam olhar para esse recorte com seriedade. 

Quando falamos da inclusão de profissionais indígenas, a diversidade vai além de fotos de campanhas institucionais e vagas afirmativas. Ela se traduz em cultura respeitada, dados acompanhados e resultados que ampliam oportunidades reais.

Construímos um mercado de trabalho mais plural quando garantimos que todos merecem ter um lugar nele, por meio de pontes fortalecidas pela equidade, por oportunidades internas e pela valorização da pluralidade.

Para avançar nesse caminho, vale acompanhar debates e boas práticas de RH que ampliem o acesso, a permanência e o desenvolvimento de profissionais indígenas e de outras etnias. Fique por dentro de tudo isso com a Alelo.

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