
Novas lideranças: qual o perfil e como capacitar gestores para o que as empresas precisam agora?
Lideranças com capacidade de entregar resultados ganham a preferência em 2026 depois de um período focado no desenvolvimento de soft skills.
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Equilibrar eficiência e crescimento pede líderes com clareza no curto e longo prazo e um RH parceiro para dar suporte nas decisões.

A gestão de uma equipe envolve “fazer malabarismo” todo dia: de um lado é preciso manter a operação rodando e a equipe focada, do outro, é necessário pensar no futuro e traçar metas de longo prazo sem comprometer a rotina e as entregas imediatas.
A rotina de quem é líder sempre foi assim, mas parece que esse cenário tem se intensificado cada dia mais. E quando a busca por equilíbrio falha, sobra ansiedade para a equipe e peso para a liderança.
Diante da volatilidade econômica e com o avanço da IA, que vem reformulando os modelos de trabalho, tomar decisões estratégicas ficou mais difícil. Tanto que 70% dos líderes intermediários afirmam não se sentirem seguros para decidir, de acordo com o relatório Gartner 2026 HR Trends and CHRO Priorities.
E quando o líder fica inseguro, todo mundo sente. O time fica ansioso, a rotatividade sobe e os erros viram segredo.
É aí que o RH entra em cena, não só como apoio, mas como parceiro de verdade. Bora entender como ajudar líderes a navegar na incerteza?
No ambiente corporativo, a volatilidade tem um nome: VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo).
Nesse contexto, gestores enfrentam pressão intensa para entregar resultados operacionais enquanto impulsionam o crescimento da empresa.
Segundo a Gartner, o futuro do trabalho está diretamente relacionado à evolução da IA, que impulsiona e remodela as organizações ao demandar novas habilidades e visão do negócio.
Mas também amplifica a instabilidade econômica por meio de ganhos de produtividade desiguais, demissões prematuras e riscos regulatórios, conforme análises do HR Trends and CHRO Priorities. E a IA é um dos motores dessa montanha-russa.
A Gartner estima que em 2026 haverá um gasto mundial de cerca de US$2,5 trilhões com inteligência artificial, um crescimento de 44% em relação ao ano anterior. Grande parte desse dinheiro vai para infraestrutura tecnológica, para aumentar a eficiência das empresas.
Mas tem um lado menos positivo: esse ritmo acelerado também gera o chamado workslop (quando a pressão por produzir mais resulta em entregas de baixa qualidade) aumentando a sobrecarga mental dos trabalhadores.
Esse crescimento acontece em alguns setores, enquanto em outros podem surgir demissões em massa (layoffs). Em 2025, menos de 1% dos desempregos foram causados diretamente pela IA, mas especialistas alertam que esse número pode crescer antes do esperado.
Em um cenário em que o baixo crescimento econômico já é a principal preocupação da liderança, a IA traz desafios adicionais.
A má gestão de informações e o uso não autorizado de ferramentas de IA dentro das empresas (conhecido como shadow AI) subiram do 4º para o 2º lugar no ranking de maiores riscos no terceiro trimestre de 2025, de acordo com o estudo Quarterly Emerging Risk Report Q2 2025, da Gartner.
As leis que regulam o uso da IA estão se multiplicando, mas em ritmo muito menor que o da expansão e domínio de mercado da inteligência artificial, especialmente em países como o Brasil, onde a regulamentação das redes ainda dá os primeiros passos.
A previsão é que as regulamentações quadrupliquem até 2030, gerando bilhões em custos de adequação para as organizações. Enquanto isso, os CEOs esperam que a IA traga retorno financeiro, estima-se que apenas 1 em cada 50 investimentos em IA entrega resultados realmente transformadores.
A transição entre o trabalho humano e o trabalho feito por máquinas não acontece sem consequências. Essa mudança gera conflitos culturais dentro das organizações, cansaço mental nos times e instabilidade financeira, como a bolha de investimentos em IA, que tem deixado as bolsas de valores mais voláteis.
No Brasil e no mundo, a automação em excesso (hiperautomação) preocupa especialistas pela ameaça à saúde mental dos trabalhadores e ao equilíbrio entre produtividade e qualidade real do trabalho.
Diante desse cenário, a Gartner recomenda aos CHROs priorizarem a mobilização de líderes para "trabalhar dois músculos" (crescimento + eficiência) em um cenário de incerteza guiado por IA, colocando a mudança na rotina para reduzir riscos e preservar talentos.
Na prática, como a gente faz com isso?
O objetivo do RH é tirar o gestor do modo “apagar incêndio” e colocá-lo no modo “decidir com segurança”.
O time de Recursos Humanos deve atuar como suporte estratégico para gestores sob pressão, guiando a transição para um mundo AI-driven (orientado a IA), de acordo com as prioridades indicadas no HR Trends and CHRO Priorities.
Entre os pilares que devem guiar o RH podemos citar.
Uma das funções mais importantes do RH hoje é garantir que a gestão da empresa enxergue algo que costuma passar despercebido: o impacto das mudanças tecnológicas nas pessoas.
Quando uma organização adota novas ferramentas de inteligência artificial, especialmente aquelas que executam tarefas sem precisar de intervenção humana a cada passo, ela transforma profundamente a rotina de trabalho. Algumas funções mudam, outras deixam de existir e surgem novas demandas que os colaboradores ainda não estão aptos a atender.
O RH entra justamente nesse cenário, para mapear as lacunas de quais habilidades a equipe tem hoje, quais serão necessárias amanhã e o que precisa ser desenvolvido para que a equipe se mantenha a par das necessidades organizacionais.
Além disso, o RH tem o papel de revisitar o que a empresa oferece aos seus funcionários além do salário (as possibilidades de crescimento, o cuidado com o bem-estar, as perspectivas de carreira). Esses elementos precisam acompanhar as mudanças, senão a empresa corre o risco de perder bons profissionais para quem já se adaptou.
Imagine uma rede de varejo que passa a usar IA para selecionar candidatos em processos seletivos. À primeira vista, parece um ganho de eficiência. Mas se essa mesma tecnologia fecha, sem querer, as portas de promoção para quem já trabalha na empresa, o problema é sério. E é papel do RH identificar essa situação, entender quais caminhos de crescimento foram afetados e ajustar a proposta para que os talentos internos não fiquem estagnados e acabem buscando oportunidades em outro lugar.
O RH precisa ter esse olhar de cuidado aos colaboradores porque, enquanto os CEOs costumam focar nos resultados que a IA pode trazer para o negócio, é a equipe de Recursos Humanos que garante que essa transformação não deixe pessoas para trás nem desperdice o potencial de quem já faz parte do time.
Quando uma empresa adota ferramentas de inteligência artificial para realizar processos que já são feitos por humanos, pode acontecer de a equipe não ter sido preparada para trabalhar em conjunto com a nova tecnologia.
O resultado é um time perdido e ansioso, que pode se sentir trocado pela IA e temendo layoffs (demissões em massa). O papel do RH é evitar esse cenário, construindo um plano claro que alinhe as expectativas da organização às competências que o profissional tem ou precisa desenvolver.
Essa divisão ajuda a organizar as prioridades sem sobrecarregar ninguém e garante que cada etapa da transformação tenha as pessoas certas, cuidadosamente preparadas para que os resultados não sofram quedas durante mudanças culturais ou sistêmicas.
Pense em uma fábrica brasileira que começa a automatizar suas linhas de produção. No curto prazo, o RH não demite os operadores, treina-os para supervisionar e interagir com as máquinas, garantindo que a operação funcione bem durante a transição. Já no médio prazo, o plano evolui: esses mesmos profissionais podem ser preparados para funções mais complexas, como desenvolver processos mais sustentáveis ou propor melhorias nos produtos. O que era uma ameaça de desemprego vira uma oportunidade de crescimento.
Esse planejamento também considera que perfis diferentes precisam de caminhos diferentes. Um profissional em início de carreira tem necessidades de desenvolvimento distintas de alguém com anos de experiência, e um bom plano leva isso em conta, evitando tanto o desperdício de talento quanto a frustração de quem sente que sua carreira parou no tempo.
Hoje, liderar significa trabalhar duas frentes: a operacional e mais imediata, e a estratégica e de longo prazo.
Uma operação eficiente consiste em cortar o que não funciona, reduzir custos onde necessário, fazer mais com menos e realizar os entregáveis no tempo certo. Mas enquanto isso, a empresa precisa crescer, explorar novos mercados, contratar para áreas estratégicas e inovar.
O desafio? Essas duas demandas, muitas vezes, caminham em direções opostas, e a gestão fica no meio desse desafio. Somando isso ao fato de que as mudanças no ambiente corporativo são constantes, o líder precisa aprender a tomar decisões seguras e estratégicas em um ambiente de alta volatilidade.
Lá no início do texto falamos que 70% dos líderes intermediários afirmam não se sentirem seguros para tomar decisões, é aqui que o RH entra.
Preparar a liderança para lidar com o volume de decisões complexas sem entrar em colapso também faz parte da rotina de Recursos Humanos. Isso significa desenvolver tanto habilidades técnicas de gestão e análise de dados históricos, quanto a capacidade de manter o time engajado e orientado mesmo em meio à incerteza, porque quando o líder perde o rumo, a equipe inteira sente.
Um exemplo que ilustra bem esse desafio é o de um gestor em uma empresa de tecnologia financeira. Ao mesmo tempo em que precisa reduzir a equipe em áreas que a inteligência artificial passou a cobrir, ele também está contratando pessoas para atuar em novos mercados. São decisões que acontecem em paralelo, com impacto direto nas pessoas, e que exigem clareza, comunicação e equilíbrio emocional para não esgotar nem a liderança nem o time.
Quando uma equipe vive por muito tempo sob pressão intensa: prazos apertados, mudanças constantes, incerteza sobre o futuro, algo sutil começa a acontecer. As pessoas vão se desconectando. Não de uma vez, mas aos poucos.
O entusiasmo diminui, a comunicação esfria, e o que era um time engajado começa a operar no piloto automático. Esse processo, quando não é percebido a tempo, pode prejudicar a cultura da empresa e comprometer os resultados.
Mas isso pode ser mitigado com o auxílio da gestão, líderes que sabem identificar o estado emocional do time, e o próprio, e que agem antes que o cansaço vire desmotivação crônica.
Isso se desenvolve com prática, da mesma forma que um atleta aperfeiçoa um movimento até ele se tornar automático. Um tenista não pensa em cada etapa do saque durante a partida, o gesto já está incorporado. Com a liderança acontece o mesmo. Quanto mais a liderança pratica a escuta, o diálogo aberto e o reconhecimento do progresso da equipe, mais essas atitudes se tornam naturais, mesmo nos momentos de maior pressão.
Na prática, pode ser algo simples como uma conversa semanal dedicada a assuntos que vão além das entregas, para compartilhar como o time está se sentindo, temores, necessidades e outros temas que não são diretamente sobre trabalho, mas impactam ele.
O RH contribui nesse processo formando uma gestão que entende que cuidar do clima do time não é desvio de foco, é parte essencial do trabalho de quem lidera.
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