Gravidez e contratação: inclusão e equidade na prática

Os desafios da contratação durante a gravidez revelam como os estigmas ainda impactam mulheres no mercado de trabalho.

Desafios da contratação durante a gravidez

Para muitas mulheres, descobrir uma gravidez durante um processo seletivo ainda desperta um receio silencioso: o de que aquele momento da vida seja interpretado pelo mercado como um problema.

Mesmo com o avanço das discussões sobre diversidade, inclusão e equidade, a maternidade continua cercada por inseguranças dentro do ambiente corporativo. Em muitos casos, o medo não está apenas em conseguir uma vaga, mas em continuar sendo vista como alguém preparada, disponível e pronta para crescer profissionalmente.

No dia a dia, essa preocupação influencia decisões, comportamentos e até planos pessoais. Há mulheres que evitam comentar sobre a gestação durante entrevistas, enquanto outras sentem necessidade constante de provar produtividade para compensar um estigma que nunca deveria existir.

O que os dados mostram sobre maternidade e mercado de trabalho 

Os números ajudam a explicar por que essa percepção ainda é tão presente. Segundo levantamento realizado pela Catho, cerca de 60% das mães estão fora do mercado de trabalho no Brasil. Já outra pesquisa da plataforma revelou que 49% das mães brasileiras afirmam já ter perdido uma oportunidade profissional por serem mães ou estarem grávidas.

Uma pesquisa recente sobre maternidade e carreira, também da Catho, apontou a percepção de impacto no crescimento profissional durante a gravidez, especialmente em relação a promoções e oportunidades de desenvolvimento. Entre as entrevistadas, 94,8% disseram não ter recebido promoção durante a gravidez.

Na prática, os números revelam um cenário que muitos profissionais conhecem bem. Há quem evite comentar sobre a gestação durante entrevistas. Algumas mulheres adiam planos pessoais por medo do impacto na carreira. Há ainda quem sinta necessidade constante de provar produtividade para compensar um estigma que nunca deveria existir.

A discussão vai além da contratação em si. Ela fala sobre permanência, crescimento profissional e sobre como as empresas escolhem enxergar mulheres que vivem a maternidade enquanto continuam construindo carreira.

Estigmas ainda acompanham a maternidade no mercado de trabalho

Por muito tempo, o mercado alimentou a ideia de que maternidade e desenvolvimento profissional não combinam. Mesmo sem ser dito de forma explícita, o tema ainda costuma gerar dúvidas silenciosas dentro das empresas.

Em muitos casos, a maternidade acaba sendo analisada junto de questões operacionais e de gestão de equipe, especialmente em contextos de contratação ou movimentação profissional. E é justamente essa associação que ajuda a explicar por que tantas mulheres ainda enfrentam insegurança nesse momento da carreira.

Ao mesmo tempo, especialistas e lideranças têm chamado atenção para outro ponto: quando empresas criam barreiras para contratação de mulheres grávidas, não estão apenas reforçando um problema social. Também podem estar deixando de contratar profissionais qualificadas, experientes e preparadas para gerar resultados.

Especialmente em setores que convivem com escassez de talentos, restringir oportunidades por causa da maternidade pode representar uma perda estratégica para os próprios negócios.

“A sua gravidez não é um impeditivo para a sua contratação”

Foi justamente durante um período de recolocação profissional que Thamiris Barreto Silva descobriu a gravidez.

Hoje Coordenadora de Sistemas da Alelo, ela lembra que o processo seletivo aconteceu em um momento de muitas incertezas pessoais e profissionais.

Mesmo diante do receio, Thamiris decidiu ser transparente sobre a gestação ainda durante as etapas da seleção.

“Existia o medo de perder a oportunidade justamente por estar vivendo esse momento. Mas eu escolhi ser transparente desde o início.”

A resposta que recebeu acabou mudando completamente sua percepção sobre aquela experiência.

“Quando recebi a notícia da aprovação, a Maya me disse: ‘A sua gravidez não é um impeditivo para a sua contratação’. Aquilo foi muito impactante, porque sabemos que, infelizmente, essa ainda não é a realidade da maioria das mulheres no Brasil”, conta. 

Mais do que a contratação em si, ela afirma que o momento representou acolhimento e pertencimento desde o primeiro contato com a empresa.

“Naquele instante, senti algo que vai além de um processo seletivo: senti acolhimento genuíno e pertencimento desde o primeiro dia”, completa.

A experiência ajuda a mostrar como pequenas atitudes e decisões podem transformar completamente a forma como uma profissional atravessa um período importante da vida.

Porque quando a relação começa sem julgamento, a construção de confiança também acontece de outro jeito.

O que empresas perdem quando deixam a maternidade pesar mais que o talento?

Para Alessandra Aparecida de Oliveira Amazonas, Superintendente de Sistemas da Alelo e responsável pela contratação da Thamiris, a análise sobre competência precisa estar acima de qualquer leitura sobre momento pessoal.

Segundo Alessandra, Thamiris foi escolhida por apresentar as habilidades técnicas e comportamentais necessárias para a posição, além da experiência em adquirência, cartões e liderança de equipes.

Mãe de três filhos, Alessandra afirma que a maternidade nunca limitou sua trajetória profissional — e acredita que o mercado ainda perde talentos ao transformar gravidez em barreira.

“Na minha opinião, as empresas só perdem talentos quando criam bloqueios em contratar mulheres grávidas ou em fase de planejamento.”

Ela também destaca que a maternidade costuma fortalecer habilidades importantes para posições de liderança e gestão.

“Mulheres que atravessam a maternidade reforçam habilidades como gestão de prioridades, eficiência na gestão do tempo, inteligência emocional, resiliência, empatia e técnicas de negociação.”

A reflexão acompanha uma mudança que vem ganhando força no mercado: a percepção de que relações de trabalho mais humanas não reduzem produtividade. Pelo contrário. Em muitos casos, ajudam a fortalecer vínculos, aumentar a confiança e criar ambientes mais saudáveis para equipes e lideranças.

Quando acolhimento deixa de ser discurso e passa a fazer parte da rotina

Quando o assunto é maternidade, o acolhimento costuma aparecer menos no discurso e mais na rotina.

A forma como as lideranças conduzem conversas, organizam horários, apoiam necessidades do período e acompanham o retorno da licença faz diferença direta na experiência profissional de muitas mulheres.

Segundo Thamiris, esse cuidado ficou claro desde os primeiros dias na empresa.

“Recebi orientações, suporte e tive acesso a benefícios que fizeram toda a diferença nesse período”, afirma. 

Ela também relembra pequenas ações que ajudaram a tornar a experiência mais tranquila durante a gestação.

“Tive apoio prático e humano, pessoas me orientando sobre o plano de saúde, gestores flexibilizando horários para exames e consultas, e a nossa Business Partner (BP) — parceira de RH que acompanha a área — sempre próxima.”

O cuidado continuou inclusive no retorno da licença-maternidade — fase que ainda gera insegurança para muitas mulheres.

“No retorno da licença surgiu um novo medo: o de não encontrar mais o meu espaço. Mas, mais uma vez, a empresa superou esse receio”, comentou. 

Gravidez não interrompe capacidade profissional

Durante o período de integração da Thamiris, a equipe também precisou se organizar sabendo que a licença-maternidade aconteceria em poucos meses. Ainda assim, segundo os gestores envolvidos, o processo aconteceu de forma estruturada e natural.

Leandro Ramos, gestor da coordenadora na época, afirma que o protagonismo dela foi essencial para garantir a fluidez durante esse período.

“Em pouco tempo, ela se apropriou do escopo da área, liderou a reestruturação de duas equipes e conduziu a contratação de dois novos colaboradores.”

Antes de iniciar a licença, Thamiris também estruturou processos, organizou responsabilidades e preparou a transição das atividades da área.

“Todo esse trabalho foi conduzido com muita maestria, garantindo que tanto a integração quanto o período de licença-maternidade ocorressem de forma tranquila e eficiente”, afirma Leandro.

A experiência também ajuda a ampliar uma discussão que ainda aparece com frequência no mercado de trabalho: a ideia de que maternidade e crescimento profissional não conseguem caminhar juntos.

No dia a dia, porém, o que faz diferença costuma ser menos o momento de vida da profissional e mais a forma como a empresa, a liderança e a equipe se organizam para atravessar esse período com clareza e planejamento.

O que essa discussão diz sobre o futuro das relações de trabalho?

Nos últimos anos, o mercado passou a discutir com mais frequência temas como flexibilidade, saúde mental, experiência do colaborador e liderança mais humana. Parte dessa mudança veio da percepção de que ambientes de trabalho mais acolhedores também impactam engajamento, permanência e confiança dentro das equipes.

Os números ajudam a mostrar esse movimento. Segundo uma pesquisa da Deloitte, 77% dos profissionais afirmam considerar o bem-estar e a qualidade do ambiente de trabalho na hora de permanecer em uma empresa. Já um levantamento da Gallup apontou que equipes com maior sensação de apoio e segurança psicológica apresentam índices mais altos de engajamento e retenção.

Nesse contexto, a maternidade também passa a ocupar um espaço importante dentro da conversa sobre experiência profissional.

Afinal, reconhecer que pessoas vivem diferentes fases da vida enquanto continuam construindo carreira aproxima o trabalho de algo mais real — e menos baseado em modelos rígidos que já não refletem a rotina da maioria das pessoas.

Para o RH, a discussão deixa um aprendizado importante: políticas, benefícios e processos fazem diferença, mas a experiência prática das pessoas depende principalmente da forma como lideranças e empresas transformam cuidado em atitude cotidiana.

Quando o talento vem antes dos estigmas, relações de trabalho se tornam mais humanas, mais possíveis e mais conectadas com a realidade de quem constrói carreira sem deixar de viver outras dimensões da vida. 

É justamente nesse tipo de experiência que empresas conseguem fortalecer vínculos, confiança e ambientes mais saudáveis para todos os profissionais.

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