
Novas lideranças: qual o perfil e como capacitar gestores para o que as empresas precisam agora?
Lideranças com capacidade de entregar resultados ganham a preferência em 2026 depois de um período focado no desenvolvimento de soft skills.
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A partir do recrutamento preditivo, o que antes era um processo manual, se viu orientado por People Analytics, estatísticas e ferramentas de Inteligência Artificial.
O processo de Recrutamento & Seleção (R&S) nas empresas, especialmente nas mais inovadoras e alinhadas às tendências do mercado, mudou profundamente nos últimos anos e esses avanços devem continuar com a consolidação do recrutamento preditivo, aquele que usa o histórico – ou seja, os dados – para prever quais candidatos se adaptarão melhor à cultura da empresa e devem entregar melhores resultados.
A partir desse modelo de recrutamento, o que antes era um processo manual e lento, centrado em decisões baseadas apenas na análise de currículo puramente e somada a uma certa “intuição” do contratante, hoje foi transformada em uma jornada estratégica e completamente digital, orientada por análise de dados (People Analytics), estatísticas e ferramentas de Inteligência Artificial.
O objetivo com o recrutamento baseado em dados e IA vai desde a redução do turnover, com contratações mais precisas, até a economia de tempo e custos no processo seletivo, para desaguar afinal em uma equipe que entregue resultados e que, por sua vez, tenha acesso a um ambiente que seja colaborativo, inclusivo e no qual a gestão de pessoas seja valorizada.
E a aplicação de modelos de predição já virou referência, como pode ser visto em relatórios de abrangência mundial:
● Organizações que adotam análises preditivas em recrutamento relatam melhoria na qualidade das contratações em cerca de 69% dos casos, segundo informações da Multi Recruit, empresa especializada em soluções personalizadas de recrutamento;
● Empresas que usam essas técnicas dizem que o tempo para preencher vagas (“time-to-hire”) pode diminuir em 30 % a 50 %, relata o documento “Predictive Analytics in Human Resource Management: Leveraging Data Mining for Talent Acquisition”, da revista científica International Journal of Sciences and Innovation Engineering (IJSCI);
● Utilizando modelos preditivos para retenção, algumas organizações observam queda de até 20 % a 25 % nas taxas de rotatividade de novos contratados, relata o artigo “AI in HR and Recruitment Statistics and Facts”, publicado na plataforma Market.Biz;
● Um relatório selecionado na “Top 100+ HR Analytics & Metrics Statistics 2025”, da empresa de soluções de contratação Second Talent, indica que programas de otimização de recrutamento mostraram 312% de retorno em seis meses em empresas em que a análise de dados já está incorporada à estratégia.
No Brasil, a adoção de novas tecnologias de modo geral pode ser vista como um passo definitivo em relação ao recrutamento preditivo. Um exemplo é uma pesquisa de 2024 da consultoria Deloitte, que aponta que 58% das empresas no país já usam Inteligência Artificial no dia a dia em uma variedade de aplicações, o que inclui a triagem de currículos.
Mas será que a simples implementação das ferramentas por si só leva a resultados satisfatórios e escolhas ideais? E qual a maneira de ler essas informações? E mais: qual se torna o papel da equipe de RH quando “as máquinas entram em campo”?
Para um bate-papo que busca esclarecer essas dúvidas convidamos Robson Fonseca Barbosa, Diretor Executivo da Selpe Gente & Gestão, e Magá Koster, diretora da RhMais Talento e especialista em gestão estratégica de pessoas.
Bora lá?
No modelo tradicional de recrutamento, os processos eram predominantemente manuais: os currículos eram enviados por e-mail ou impressos, e a triagem era feita “na mão” pelo recrutador.
O foco principal estava no perfil técnico, dando prioridade à experiência profissional e à formação acadêmica, enquanto aspectos comportamentais e de inteligência emocional, as chamadas soft skills, eram pouco consideradas.
Outras questões “dessa época” são:
● A comunicação com os candidatos era unidirecional, uma vez que eles enviavam o currículo e aguardavam o andamento da seleção, um processo com pouca ou nenhuma transparência;
● O tempo de contratação era longo, devido à falta de automação e ferramentas de gestão, tornando o processo caro e demorado;
● O uso de dados era mínimo, e as decisões geralmente se baseavam na intuição do recrutador, o que aumentava o risco de vieses e diminuía a assertividade;
● Nesse contexto, o RH atuava principalmente de forma operacional, executando processos administrativos em vez de desempenhar um papel estratégico dentro da empresa.
No modelo moderno e preditivo de recrutamento, os processos são digitais e automatizados, com o uso de plataformas online, sistemas de rastreamento de candidatos (ATS), entrevistas por vídeo e integração com redes sociais profissionais.
Desse modo, a análise de dados e a Inteligência Artificial, por meio de People Analytics, ajudam a prever o sucesso de um candidato. A busca é pelo chamado fit cultural, quando há um grau de compatibilidade entre os valores, comportamentos e atitudes do indivíduo e a cultura organizacional de uma empresa.
Segundo Robson Barbosa, o recrutamento preditivo é baseado em três pilares básicos: o perfil de um cargo bem definido, o potencial do candidato e o conjunto de experiências e habilidades adquiridas ao longo da trajetória profissional.
“Quando referimos ao potencial do candidato, mapeamos suas características comportamentais e de personalidade, os principais fatores que o motivam e o fit cultural, bem como o potencial cognitivo. Assim, através da Inteligência Artificial e de ferramentas de People Analytics, os algoritmos interpretam e cruzam todos estes dados identificando o ‘match perfeito’ entre o profissional e o perfil do cargo em questão”.
As informações mais relevantes que devem ser analisadas para encontrar um novo talento são destacadas em quatro frentes:
● Desempenho e histórico;
● Dados de seleção (testes, entrevistas, fontes de recrutamento);
● Indicadores comportamentais e psicométricos;
● Engajamento e retenção.
“Essas informações ajudam a prever o sucesso futuro e permitem avaliar soft skills por meio de testes situacionais, análise de linguagem e simulações comportamentais”, explica Magá Koster.
Para a diretora da RhMais Talento, o recrutamento preditivo quantifica o comportamento humano, sem reduzir pessoas a números, combinando camadas que melhoram previsões.
“Candidatos com perfil comportamental A + canal B + histórico de adaptação rápida têm maior probabilidade de sucesso. Estudos e relatórios mostram que modelos que combinam múltiplas fontes superam modelos isolados”, afirma.
As informações mais relevantes para avaliar o potencial futuro dos candidatos, explica Robson, estão relacionadas aos fatores de motivação que o impulsiona, as características pessoais que convergem com a cultura organizacional, a clareza em relação ao nível de complexidade das atividades que correspondem à capacidade do profissional, bem como a forma como esse indivíduo toma decisões.
“No processo de recrutamento, a convergência deste conjunto de fatores é de maior relevância do que muitas hard skills”, diz o diretor da Selpe.
O risco de viés discriminatório existe porque, mesmo sendo movido por dados e Inteligência Artificial, o sistema aprende com informações históricas.
Se os dados usados para treinar os algoritmos refletem padrões antigos de discriminação (preferência por gênero, idade, raça, orientação sexual, local de moradia ou universidade de origem), o modelo pode reproduzir e até reforçar esses preconceitos.
Para evitar que isso aconteça durante o recrutamento, Magá avalia ser importante:
● Revisar e limpar os dados antes de usar, garantindo que não tragam distorções do passado;
● Evitar informações que possam gerar julgamentos;
● Monitorar continuamente os resultados para ver se o sistema está sendo equilibrado;
● Manter sempre o profissional de RH no controle final das decisões, com base nos dados, mas também na sensibilidade humana;
● Garantir transparência sobre como as recomendações são feitas.
E ela faz ainda uma ponderação importante: “O papel da tecnologia é apoiar, nunca substituir o olhar humano. A ética precisa ser o centro de qualquer estratégia que envolva IA”.
Além da eficiência do recrutamento preditivo em otimizar o tempo e os custos de contratação, que outros benefícios estratégicos essa abordagem traz para o negócio em geral e para o RH em específico?
A melhoria da qualidade da contratação, ou seja, a chegada de pessoas que performam melhor e ficam mais tempo, resulta em vantagem competitiva e planejamento estratégico de talentos, analisa Magá.
Desse modo, o RH se torna um parceiro estratégico, e deixa de atuar apenas de forma reativa, correndo atrás das vagas.
“Assim, o RH passa a atuar de forma proativa e consultiva, apoiando diretamente o crescimento do negócio”, explica.
Uma coisa é inegável: o recrutamento preditivo muda o papel do recrutador, que precisa saber lidar com dados, métricas e ferramentas analíticas, ao mesmo tempo que deve manter (e mesmo apurar) o olhar humano nas contratações.
“Com o recrutamento preditivo, o recrutador ganha um novo papel: o de intérprete de dados e consultor estratégico. Ele passa a usar as informações e previsões para orientar decisões, sempre mantendo sua sensibilidade humana e empatia”, define Magá.
Em relação às habilidades essenciais desse novo perfil de profissional, ela destaca:
● Saber ler e interpretar métricas;
● Traduzir dados em recomendações práticas para gestores;
● Utilizar a tecnologia de forma ética e consciente;
● Principalmente, manter o foco no relacionamento humano, que continua sendo o grande diferencial do recrutador.
Para Robson, o recrutamento preditivo possibilita mais segurança ao recrutador na escolha do profissional mais adequado à posição que está sendo trabalhada.
“O desenvolvimento do pensamento crítico e analítico faz com que faça esta escolha de forma assertiva. O olhar humano entra como ajuste fino ao processo seletivo no momento de uma entrevista, na análise de situações vividas e contextos de vida”, aponta o representante da Selpe.
Em relação ao RH e a gestão de pessoas, não é incomum algumas novidades serem apenas passageiras, enquanto outras chegam para ficar, ganhando revisões periódicas com as novas descobertas tecnológicas. E como será o futuro do recrutamento preditivo?
O upgrade deve acontecer, segundo Magá, em relação a integração ainda maior de Inteligência Artificial, análise de dados e experiência do candidato.
“Veremos ferramentas cada vez mais capazes de cruzar informações e indicar, com alto nível de precisão, quem tem o perfil ideal e em que momento trazer esse talento para a empresa”, argumenta ela.
O poder de “acuricidade”, ou seja, de precisão do recrutamento preditivo, será ainda maior, acredita Robson. Segundo ele, para escolha dos profissionais para as respectivas funções chegaremos a uma certeza ainda maior de que encontramos as pessoas certas para os lugares certos.
“Essa abordagem nos levará a compreensão do indivíduo de forma integral e identificando o seu potencial de crescimento e desenvolvimento”, destaca.
Apesar da evolução sem precedentes, Magá Koster insiste em reforçar que a tecnologia não vai substituir o julgamento humano.
“Ela será cada vez mais um apoio estratégico, permitindo que o recrutador tome decisões com base em fatos e evidências, sem abrir mão da empatia, da escuta e da intuição que continuam sendo qualidades insubstituíveis. O futuro do recrutamento será a união entre dados e humanidade: tecnologia a serviço de pessoas, e não o contrário”, complementa.
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